Coberturas

Por: Alexander Aguiar

21 de junho de 2016

Cobertura “5º Olhar de Cinema”, Dia 6

Segunda-feira, 13 de Junho de 2016

A programação de segunda me reservaria as mais gratas surpresas de todo o festival. Todos os filmes que assisti na data me chamaram a atenção de alguma maneira positiva, em maior ou menor proporção.

Iniciei minha aventura diária de assistir a quatro longas-metragens com a sessão de “Compasso de Espera” (1973), direção de Antunes Filho, renomado dramaturgo brasileiro que só realizou essa obra no cinema. Ao ser indagado sobre a decisão de não se emaranhar de maneira mais contundente na sétima arte, Antunes afirmou que o método de realização cinematográfico era por demais complicado, sem que a relação com os atores pudesse ser aprimorada a longo prazo, como é de praxe no teatro.
O que se vê na tela, contraditoriamente, são as magistrais atuações de Zózimo Bulbul (imortalizado em filmes como “Terra em Transe” e “O Veneno da Madrugada”), Renée de Vielmond e Elida Gay Palmer.
O filme conta a história de Jorge, poeta/publicitário negro que luta diariamente contra o racismo instaurado em diversos setores da sociedade que o circunda, seja da forma explícita que sujeita o protagonista ao linchamento público, ou nas negociações comerciais que envolvem seu trabalho: “Negro só na cor, mas tem alma de ariano”, afirma sua chefe ao apresentá-lo para investidores alemães. Outro fator explorado no filme são as cisões de classe dentro do próprio movimento negro, que o colocam em conflito com seus próprios semelhantes.
Jorge se vê dividido entre seu romance com Cristina, “filha branca” da aristocracia paulistana; entre a relação de poder que é instaurada diante de seu relacionamento profissional e pessoal com Emma, sua chefe; entre o status social do prestígio por sua arte em contraposição ao passado na periferia, em especial com sua irmã, que é apresentada como antagonista natural de sua atual condição em oposição às suas origens; bem como entre as relações que possui com outros membros do movimento negro inseridos no contexto da boemia paulistana, que opõe seu pacifismo à Martin Luther King Jr. aos ideais revolucionários de Stokely Carmichael.

Compasso de Espera

Todas essas relações, levadas às últimas consequências, exploram o ar da tragédia que lamentavelmente faz parte ainda hoje da organização social racista e classicista que rege as relações entre poder e oprimido na nossa sociedade.
Destaque para a incrível cópia em 35mm’s, e todo o charme dos riscos e manchas de óleo sobre a película, bem como o discreto som do projetor oriundo do fundo da sala,  que conferiram à exibição um caráter “nostálgico”, tendo em vista que as projeções em filme atualmente se encontram cada vez mais obsoletas em comparação às digitais, segmento majoritário no mercado.

Na sequência entrei direto na sessão que se iniciava na sala ao lado, para assistir ao filme “Carnívora“, do amigo Arthur Tuoto.

Antes de me ater ao filme, preciso comentar sobre algo estrutural na sala de exibição do Espaço Itaú de Cinema.
Recentemente as salas foram reformadas e as poltronas são bem mais confortáveis do que as do antigo “Espaço Unibanco”, que por tanto tempo me acomodou nas sessões durante o período de faculdade. Passava a maior parte do meu tempo livre dentro do cinema, única janela de exibição da cidade que contemplava filmes estrangeiros e não-comerciais. Porém, com o upgrade das salas e a necessidade de se adequar às exigências do corpo de bombeiros, surgem as saídas de emergência. Até aí tudo certo, mas é BIZARRO o fato de que um letreiro tão grande e LUMINOSO esteja localizado exatamente ABAIXO DA TELA onde o filme está sendo projetado. Uma luz branca com escrito em neon competindo diretamente com a imagem na tela. Reclamação só minha, talvez?
Outro fator que é ignorado em praticamente TODOS os locais de exibição no Brasil são as especificações da janela. Muitas vezes os filmes são projetados em aspect ratio distinto de sua concepção original, seja por desatenção ou por falta de lentes (não é o caso aqui), mas é comum no Brasil que filmes de janelas de proporção menores que a do CinemaScope sejam projetados em tela Scope.
No exterior é comum ver as famigeradas “cortinas pretas” que cobrem os excedentes na tela branca e evitam que a luz projetada se disperse, tornando o filme “mais claro” do que ele de fato deveria ser. Alguns cinemas, como os complexos Village Cines em Buenos Aires, onde se concentram a maior parte das projeções realizadas no BAFICI, possuem diferentes formatos de tela em diferentes salas, e jamais um filme é projetado em uma tela que não seja do tamanho exato de seu aspect ratio original.
Questões como essas fazem diferença em alguns filmes, mas em casos como Carnívora, esse tipo de problema transforma a obra em outra coisa, muito distante da ideia central de sua concepção.

O filme de Tuoto, assim como seu longa anterior, “Aquilo que fazemos com as nossas desgraças” (2014), é permeado por diversas imagens pretas (ou não-imagens) projetadas na tela. Preto que não é tão escuro em uma tela refletindo luz para além da janela do filme, e que é muito menos escura diante de um letreiro luminoso brilhando embaixo da tela, para indicar uma saída que ninguém pretende usar (tendo em vista que uma emergência é algo extraordinário, e não a regra). Ruim pra quem é espectador e busca uma experiência mais próxima da idealizada pelo próprio diretor.
Voltemos ao filme.

Carnivora

Arthur Tuoto é um dos principais nomes da nova safra de realizadores audiovisuais no estado do Paraná, e expoente internacional no que se refere à relação entre artes visuais, vídeo e o cinema expandido para além da tela convencional. Seu novo filme, como mencionado anteriormente, repete o dispositivo utilizado em seu precedente. A banda sonora estabelece uma linha narrativa, e imagens pesquisadas em arquivo são intercaladas na montagem como forma de ilustrar, subverter e até mesmo criar distintos discursos (sejam eles narrativos ou não) de sua trilha narrada.
A história aqui é uma versão audiobook do conto “The Carnivore” da autora americana de ficção científica Katherine MacLean, que conta a saga de uma das últimas sobreviventes do planeta Terra, que se descobre sob os cuidados de uma civilização extraterrestre, formada por animais de feições humanoides. Ao longo da narrativa, descobrimos que a quase extinção humana se deu através de uma guerra nuclear, e que os remanescentes serão incapazes de reerguer a humanidade porque foram esterilizados, consequência da nossa natureza carnívora, que não nos permite uma vida em harmonia (que a rigor não deveria ser capaz de permitir a civilização, fato que é encarado aqui como acontecimento extraordinário). Uma versão completa do áudio pode ser ouvida aqui.
Intercalado com os trechos dessa narração, há um meticuloso trabalho de escolha de imagens, que ilustram todo esse contexto: bases espaciais russas, a ausência da gravidade, explosões nucleares, paradas políticas, além de diversas outras, que muitas vezes se amparam mais em seu caráter plástico-visual do que em seu discurso narrativo. Tuoto certa vez, ao falar sobre seu filme anterior em um debate na Mostra de Cinema de Tiradentes, mencionou o fato de não se considerar um “diretor” da forma que compreendemos o termo, mas como um “curador de imagens”. Em seu novo longa, a premissa não é diferente. De qualquer forma, as imagens que permanecem mais presentes na memória recente do filme é a das telas pretas, iluminadas somente pela legenda que traduz o conteúdo da narrativa na banda sonora.
O grande mérito da obra de Tuoto é proporcionar um prazer tanto estético quanto auditivo, de maneiras distintas das proporcionadas pelo “cinema canônico” narrativo. Em aspectos diversos, o estímulo audiovisual gerado por “Carnívora” se refere pouco ao que se vê habitualmente no festival, e por vezes chega a ser lamentável o fato de que seus filmes sejam, apesar de longas-metragens, tão curtos.

Dando prosseguimento à Mostra Competitiva do Festival, me dirigi à sala de exibição do filme “Gulîstan – Terra de Rosas“, da diretora Zaynê Akyol. O documentário registra o treinamento do setor feminino da guerrilha na região do Curdistão.
Lideradas sob os mandamentos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), sob a liderança do ativista político Abdullah “Apo” Öcalan, diversas garotas no início de sua fase adulta abandonam suas famílias e dirigem-se à região das montanhas próximas às fronteiras com o Iraque, Turquia e Síria, onde encontram-se os principais combatentes do Daesh (também chamado de ISIS ou Estado Islâmico), para proteger seu território e almejar a liberdade. Os métodos de tática de guerrilha não são necessariamente o foco principal, mas sim a busca por uma organização revolucionária baseada no ideal de liberdade, “se não agora, ainda que tardia”. O próprio título do filme também se refere ao nome da irmã mais nova de uma das guerrilheiras, simbolizando uma esperança futura para as próximas gerações, em que o presente não seja permeado pela tensão da guerra, mas pela vida livre.

Gulistan

A tensão da guerra iminente é presente em toda a trajetória do filme, mesmo diante dos paradisíacos cenários que misturam a região montanhosa aos tortuosos caminhos de estepes que ligam os países fronteiriços ao território curdo. Os belos registros contrastam com a expectativa frustrada do combate, na qual o discurso do filme se ampara de maneira onipresente. Sei que da minha parte é até covarde criticar um filme pelo que ele não é, porque no que ele atreve a ser, ele o é com maestria.

Para finalizar o dia, pretendia assistir ao longa da mostra competitiva “A Última Terra”, mas como os ingressos para credenciados estavam esgotados logo após o almoço, alterei minha programação e dei um jeito de assisti-lo no dia seguinte, e então fui assistir à sessão de “Oncle Bernard – Uma Anti Lição de Economia“, do diretor québécois Richard Brouillette, filme para o qual havia me programado para assistir no dia posterior. Passado uma semana, após já ter assistido a todos os filmes do festival, sou capaz de afirmar que em poucas ocasiões o acaso foi tão generoso.
Dos filmes contemporâneos, “Oncle Bernard” foi sem dúvidas a mais grata surpresa do festival, e não vou me ater muito aos detalhes técnicos pois em breve tratarei de fazer uma crítica completa à parte.
O material bruto de uma entrevista com Bernard Maris, um dos editores assassinados da publicação francesa Charlie Hebdo, revisitado cerca de 15 anos após a sua gravação original, é não só como o próprio título sugere uma “anti lição de economia”, mas um profundo estudo sobre a mentalidade de seu entrevistado, que durante mais de uma hora discorre de maneira bastante heterodoxa ao senso comum do pensamento sobre economia, em especial num momento onde o revival liberal parece ter atingido todas as camadas do pensamento econômico global contemporâneo.

Oncle Bernard

O filme, que por si só poderia não ser caracterizado como nada além de uma entrevista, transforma os “momentos mortos” do registro em sua grande arma, ao evidenciar o caráter mais “humano” de Bernard e sua relação com a equipe que existe para além-do-quadro estabelecido, e nas trilhas de áudio que não são evidenciadas imageticamente pelo filme, que encontra na limitação da bitola diversos cortes suprimidos pelo som e pela imagem preta, trazendo o personagem novamente ao “mundo real” distinto do seu discurso, potencializando o resultado final.

O grande dia do festival mais uma vez se encerrou no bar, noite adentro, onde a discussão sobre o tema da última película (finalizada em digital, que seja) extrapolou os limites de tempo impostos pelo funcionamento das salas de exibição do festival.